Anabolizantes e saúde mental: o que a ciência diz

Quando falamos sobre o uso de esteroides anabolizantes androgênicos, a conversa quase sempre vai direto para o físico. Músculo, coração, fígado. O que a psiquiatria observa há décadas, e que continua sendo ignorado, é o que acontece com o cérebro.

Este texto reúne a literatura que embasa o que eu digo nos meus vídeos sobre o tema. Não são opiniões. São estudos revisados por pares, publicados nos principais periódicos da área.

O que acontece no coração

Um estudo publicado em 2025 na revista Circulation acompanhou 1.189 homens sancionados pelo uso de EAA em academias dinamarquesas entre 2006 e 2018, com seguimento médio de 11 anos. Os usuários tiveram risco três vezes maior de infarto agudo do miocárdio, 3,63 vezes maior de insuficiência cardíaca e 8,9 vezes maior de cardiomiopatia em comparação à população geral.

Uma revisão sistemática publicada em outubro de 2025 na Frontiers in Cardiovascular Medicine analisou casos forenses de morte associada ao uso de EAA. As autópsias encontraram hipertrofia ventricular esquerda, fibrose miocárdica, necrose focal, trombose coronária e cardiomiopatia dilatada. A toxicologia confirmou testosterona, estanozolol, trembolona e nandrolona nas amostras. O estudo conclui que a hipertrofia e a fibrose induzidas por EAA contribuem para arritmias fatais e morte súbita cardíaca, mesmo na ausência de doença coronariana prévia.

O que acontece no cérebro

Pope e Katz conduziram, em 1988 e 1994, os estudos seminais sobre os efeitos psiquiátricos de EAA. Entrevistando fisiculturistas e atletas usuários, encontraram que 22% preenchiam critérios para síndrome afetiva completa e 12% desenvolveram sintomas psicóticos associados ao uso. Em estudo subsequente, 23% dos usuários preencheram critérios do DSM para transtornos de humor.

Uma revisão sistemática publicada em 2015 na Current Neuropharmacology reuniu toda a literatura disponível sobre EAA e psicopatologia. Os efeitos documentados incluem mania, hipomania, episódios psicóticos, paranoia, depressão grave na retirada e sintomas de dependência. Usuários pontuaram mais alto em perfis paranoides, esquizoides e antissociais durante o uso.

Esses não são efeitos raros ou imprevisíveis. São consequências descritas na literatura há mais de 35 anos.

O que isso significa na prática

O uso de EAA em doses suprafisiológicas não é suplementação. Não é protocolo controlado. É intervenção hormonal com impacto documentado no músculo cardíaco, no fígado e no sistema nervoso central. A presença de um médico na prescrição não elimina esses riscos. Reduz alguns, mas não os apaga.

Se você usa, pensa em usar ou conhece alguém nessa situação, estas informações são para você.

Fontes

  1. Windfeld-Mathiasen J et al. Cardiovascular Disease in Anabolic Androgenic Steroid Users. Circulation. 2025. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.124.071117

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  2. Di Fazio N, Volonnino G et al. Forensic approach in cases of anabolic-androgenic steroid abuse and cardiovascular mortality. Frontiers in Cardiovascular Medicine. 2025;12:1585205. DOI:
    10.3389/fcvm.2025.1585205

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  3. Piacentino D et al. Anabolic-androgenic Steroid use and Psychopathology in Athletes. A Systematic Review. Current Neuropharmacology. 2015;13(1):101-121. DOI: 10.2174/1570159X13666141210222725

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Dra. Ana Beatriz Barbosa

Médica graduada pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) com residência em psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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