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Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva

Autismo e Emoções: Por Que a Leitura do Outro é um Desafio?

Autismo e Emoções Por Que a Leitura do Outro é um Desafio

Introdução

As emoções são uma linguagem universal, e grande parte da nossa comunicação ocorre sem palavras — por meio de expressões faciais, gestos, entonações e olhares. Contudo, para muitas crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa linguagem invisível é difícil de interpretar.

Enquanto a maioria das crianças neurotípicas aprende a reconhecer emoções no outro de maneira natural e progressiva, crianças com TEA podem apresentar limitações significativas nesse processo. Isso não significa que elas não sintam ou não se importem, mas sim que enfrentam barreiras neurológicas e cognitivas que dificultam a leitura e a compreensão das emoções alheias.

Neste texto, vamos explorar por que esse desafio ocorre, como o cérebro do autista percebe os sinais sociais, quais são os impactos dessa dificuldade na vida social e emocional da criança, e como pais, educadores e terapeutas podem ajudar nesse processo de desenvolvimento.

O Que é o Transtorno do Espectro Autista (TEA)?

O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por:

  • Déficits na comunicação social
  • Comportamentos repetitivos e interesses restritos
  • Alterações sensoriais e emocionais

É chamado de “espectro” porque varia significativamente de uma criança para outra — tanto em intensidade quanto em tipo de manifestação. No entanto, uma característica comum entre muitas crianças com TEA é a dificuldade em reconhecer, interpretar e responder adequadamente às emoções dos outros.

Como a Leitura Emocional Funciona no Cérebro?

Para reconhecer emoções, nosso cérebro processa estímulos visuais (como expressões faciais), auditivos (como o tom de voz) e contextuais (como a situação envolvida). Várias áreas cerebrais participam desse processo, principalmente:

  • A amígdala, que detecta pistas emocionais, especialmente ligadas ao medo.
  • O córtex pré-frontal medial, responsável por avaliar intenções e pensamentos do outro.
  • O giro fusiforme, envolvido no reconhecimento facial.
  • As regiões da Teoria da Mente, que nos permitem imaginar o que o outro está pensando ou sentindo.

Em crianças com TEA, essas áreas podem funcionar de maneira atípica — com menor ativação ou conectividade diferente —, dificultando a leitura emocional automática.

Por Que Crianças com TEA Têm Dificuldade em Reconhecer Emoções?

1. Alterações na Percepção Social

O cérebro do autista, em muitos casos, não prioriza espontaneamente as pistas sociais. Isso significa que a criança pode focar em detalhes irrelevantes do ambiente e não nos olhos ou expressões do rosto, que são fontes primárias de informação emocional.

2. Déficits na Teoria da Mente

Muitas crianças com TEA têm dificuldades com a chamada Teoria da Mente — a capacidade de entender que os outros têm pensamentos, desejos e emoções diferentes dos seus. Isso prejudica a compreensão de intenções, ironias, sarcasmos ou gestos sutis.

3. Hiper ou Hipossensibilidade Sensorial

Algumas crianças autistas são tão sensíveis a estímulos visuais ou auditivos que evitam o contato visual ou se distraem facilmente com ruídos. Outras, por outro lado, têm pouca sensibilidade emocional e precisam de sinais muito fortes para perceber o que está acontecendo no outro.

4. Dificuldade com Expressões Faciais

Enquanto crianças neurotípicas rapidamente associam uma expressão triste ao sentimento de tristeza, crianças com TEA podem ter dificuldade em fazer essa associação espontânea. Muitas vezes, elas precisam ser ensinadas de forma direta e explícita.

5. Processamento Cognitivo Diferente

O cérebro autista tende a funcionar de forma mais lógica e detalhista, e pode ter dificuldade em lidar com a subjetividade emocional. Emoções são ambíguas, variam de acordo com o contexto e nem sempre seguem uma regra clara — o que pode causar confusão para essas crianças.

Impactos da Dificuldade em Reconhecer Emoções

Essa limitação emocional interfere diretamente na qualidade dos relacionamentos sociais da criança. Alguns dos principais impactos são:

  • Dificuldade em fazer e manter amizades
  • Mal-entendidos frequentes em interações sociais
  • Isolamento ou rejeição por parte dos colegas
  • Ansiedade social e frustração constante
  • Desafios no desenvolvimento da empatia e do vínculo afetivo

É importante lembrar que essa dificuldade não significa ausência de sentimentos. Muitas crianças com TEA são afetuosas, amorosas e empáticas, mas demonstram de formas diferentes ou têm dificuldade em expressar o que sentem.

Como Ajudar a Criança com TEA a Reconhecer Emoções?

1. Ensine de Forma Direta e Visual

Use recursos visuais como cartões com expressões faciais, aplicativos interativos e jogos emocionais para ensinar a identificar tristeza, alegria, raiva, surpresa, medo, entre outros.

2. Modele as Emoções no Dia a Dia

Mostre suas próprias emoções verbalmente. Por exemplo: “Eu estou triste porque perdi um objeto importante”. Isso ajuda a criança a associar situações reais com emoções específicas.

3. Pratique o Espelho Emocional

Ao observar uma emoção na criança, nomeie-a com calma e empatia: “Você está bravo porque o brinquedo quebrou, né?”. Isso ajuda na alfabetização emocional.

4. Use Histórias Sociais

As histórias sociais são ferramentas terapêuticas que apresentam situações do cotidiano com explicações claras de comportamentos e sentimentos. Elas ajudam a antecipar emoções e reações em diferentes contextos.

5. Estimule o Contato Ocular de Forma Respeitosa

Nunca force, mas incentive de forma lúdica que a criança olhe para o rosto das pessoas. Isso amplia o acesso a pistas emocionais.

6. Trabalhe com Profissionais Especializados

Terapias como ABA (Análise do Comportamento Aplicada), Terapia Ocupacional com Integração Sensorial e fonoaudiologia podem contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento da leitura emocional e social.

Conclusão

Crianças com TEA enfrentam desafios reais na compreensão das emoções dos outros, não por falta de interesse ou frieza, mas por uma forma diferente de funcionamento cerebral. Com apoio adequado, estratégias consistentes e muita paciência, essas crianças podem desenvolver habilidades socioemocionais importantes e construir conexões mais seguras e profundas com o mundo ao seu redor.

A empatia começa quando entendemos que o outro sente — mesmo que de forma diferente — e que o afeto também se expressa em silêncio, no tempo e no jeito de cada um.

Referências

  1. Baron-Cohen, S. (2001). Theory of Mind and Autism. Trends in Cognitive Sciences.
  2. Grandin, T. (2013). The Autistic Brain: Thinking Across the Spectrum.
  3. American Psychiatric Association. (2013). DSM-5: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
  4. Goleman, D. (1995). Inteligência Emocional.
  5. Happé, F., & Frith, U. (2006). The Weak Coherence Account: Detail-Focused Cognitive Style in Autism Spectrum Disorders.
Dra. Ana Beatriz Barbosa

Dra. Ana Beatriz Barbosa

Médica graduada pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) com residência em psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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