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Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva

Memória e Cérebro: Como Suas Lembranças São Armazenadas?

Memória e Cérebro Como Suas Lembranças São Armazenadas

Introdução

Você já se perguntou por que lembra com clareza de um momento marcante da infância, mas esquece o que almoçou ontem? Ou por que certos cheiros despertam lembranças esquecidas há anos? Essas situações mostram como o cérebro organiza e divide suas memórias de forma complexa e fascinante.

Longe de ser um único sistema, a memória funciona como uma biblioteca neural, onde diferentes regiões cerebrais trabalham juntas para codificar, armazenar e recuperar informações. Dessa forma, o cérebro separa experiências de acordo com sua importância, duração e carga emocional.

Neste texto, você vai descobrir como o cérebro classifica os tipos de memória, onde eles são processados e quais fatores influenciam esse armazenamento, incluindo emoção, atenção, repetição e sono.

O Que São Memórias e Como Elas se Formam

As memórias são registros mentais que guardam nossas experiências, pensamentos e emoções. Elas moldam nossa identidade, pois dão continuidade ao nosso senso de “quem somos”.

O cérebro cria memórias em três etapas principais:

  1. Codificação – o cérebro transforma a experiência em informação útil.
  2. Armazenamento – ele mantém essa informação acessível por curto ou longo prazo.
  3. Recuperação – resgatamos a memória quando precisamos dela, mesmo sem perceber.

Esses processos ocorrem em áreas cerebrais diferentes e são afetados por fatores como atenção, motivação e emoção.

Como o Cérebro Classifica os Tipos de Memória

1. Memória Sensorial

Essa memória é a mais imediata. Ela registra, por poucos segundos, informações captadas pelos sentidos — visão, audição, tato, paladar e olfato. O cérebro analisa rapidamente se a informação é relevante. Caso contrário, a descarta.

2. Memória de Curto Prazo (ou de Trabalho)

Essa forma de memória guarda informações por segundos ou minutos. Serve para resolver tarefas rápidas, como lembrar um número de telefone momentaneamente. O córtex pré-frontal atua fortemente nesse processo, pois ajuda a manter a informação ativa enquanto decidimos o que fazer com ela.

3. Memória de Longo Prazo

Esse tipo armazena informações por um tempo prolongado — de dias a décadas. O cérebro divide a memória de longo prazo em dois grandes grupos:

  • Memória explícita (ou declarativa): relacionada a fatos e eventos que conseguimos lembrar conscientemente.
    • Episódica: lembra eventos pessoais, como aniversários e viagens.
    • Semântica: armazena conhecimento geral, como datas e conceitos.
  • Memória implícita (ou não declarativa): ocorre de forma automática, sem que você precise pensar.
    • Procedimental: envolve habilidades como andar de bicicleta ou dirigir.
    • Condicionamento e priming: associam estímulos a respostas emocionais ou comportamentais.

Onde o Cérebro Armazena as Memórias?

As memórias não ficam em um só lugar. Em vez disso, o cérebro distribui cada tipo de memória em áreas específicas, como:

  • Hipocampo – responsável por consolidar memórias de curto para longo prazo.
  • Amígdala – associa emoções às memórias, tornando as lembranças emocionais mais vívidas.
  • Córtex pré-frontal – gerencia memórias temporárias e tomada de decisões.
  • Cerebelo e núcleos da base – essenciais para habilidades motoras e hábitos.
  • Córtex temporal – armazena informações semânticas e contextuais.

Essas regiões trabalham em conjunto para garantir que memórias sejam acessadas de forma eficiente sempre que necessário.

Por Que Esquecemos Certas Coisas e Lembramos de Outras?

Esquecer faz parte do funcionamento saudável da memória. O cérebro, por meio da “poda neural”, descarta informações que não considera úteis, liberando espaço para novas experiências.

Alguns fatores determinam se uma memória será mantida ou descartada:

  • Foco e atenção: você tende a lembrar melhor daquilo que realmente prestou atenção.
  • Repetição: quanto mais vezes a informação é revisada, mais forte se torna.
  • Intensidade emocional: memórias associadas a emoções fortes são mais duradouras.
  • Associação com experiências anteriores: o cérebro cria conexões com conteúdos já armazenados, facilitando o acesso futuro.
  • Qualidade do sono: durante o sono profundo, especialmente na fase REM, o cérebro consolida o que foi vivido no dia.

Neuroplasticidade: A Base da Flexibilidade Mental

O cérebro tem a capacidade de se adaptar, aprender e reorganizar suas conexões neurais ao longo da vida. Esse processo, chamado de neuroplasticidade, permite a formação de novas memórias mesmo em idade avançada.

Você pode estimular essa plasticidade com ações simples, como:

  • Praticar novas habilidades
  • Aprender um idioma ou instrumento
  • Realizar atividades físicas
  • Dormir bem
  • Reduzir o estresse
  • Manter relações sociais saudáveis

Ao adotar esses hábitos, você fortalece a memória e contribui para a saúde cerebral a longo prazo.

Memórias Falsas: Quando a Mente Engana

Nem todas as lembranças correspondem à realidade. Isso acontece porque, ao acessar uma memória, o cérebro reconstrói o conteúdo com base em fragmentos. Esse processo está sujeito a distorções causadas por emoções, crenças e sugestões externas.

Consequentemente, uma lembrança pode ganhar elementos fictícios ou perder detalhes reais. Por isso, dizemos que a memória é mais parecida com um quadro pintado do que com uma fotografia fiel dos fatos.

Conclusão

O cérebro divide suas memórias em sistemas altamente organizados e interligados, capazes de filtrar, armazenar e resgatar informações de forma surpreendente. Saber como essas memórias funcionam permite que você compreenda melhor suas emoções, comportamentos e até seu senso de identidade.

Por meio da atenção, da repetição e de uma vida equilibrada, você pode melhorar sua capacidade de lembrar e transformar experiências em sabedoria. Afinal, nossa memória não é apenas um arquivo — ela é o espelho daquilo que vivemos e sentimos.

Referências

  1. Squire, L. R., & Kandel, E. R. (2008). Memória: Da mente às moléculas.
  2. Baddeley, A. (2007). Working Memory, Thought, and Action.
  3. Schacter, D. L. (2001). The Seven Sins of Memory: How the Mind Forgets and Remembers.
  4. Eichenbaum, H. (2012). The Cognitive Neuroscience of Memory: An Introduction.
  5. Tulving, E. (1972). Episodic and semantic memory. In Organization of Memory.
Dra. Ana Beatriz Barbosa

Dra. Ana Beatriz Barbosa

Médica graduada pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) com residência em psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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