TOC e gravidez


Autoria: Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva.

* Dra Ana Beatriz Barbosa Silva (Médica Psiquiatra, CRM/RJ 5253226/7)

Você tem alguma mania que lhe causa grande incômodo e consome muito tempo de sua rotina?

Preocupa-se excessivamente com limpeza ou organização, lava as mãos várias vezes ao dia ou confere se fechou o gás, portas e janelas com receio de que algo muito desagradável possa acontecer?

Estas e outras atitudes aparentemente sem sentido são características do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), problema que acomete cerca de 4% da população mundial e que traz intenso sofrimento aos seus portadores.

O TOC é, sem qualquer sombra de dúvida, o mais complexo quadro dentre os Transtornos de Ansiedade (medos), que intriga tanto os profissionais da classe médica quanto os da psicologia. O transtorno se caracteriza pela presença de obsessões (pensamentos repetitivos e intrusivos) e/ou compulsões (comportamentos repetitivos) – conhecidas popularmente como “manias” -, cuja vítima se torna prisioneira de sua própria mente.

TOC e Gravidez

Donald Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, chamou a atenção para a preocupação normal que toma conta de pais de primeira viagem e salientou a importância desse fato para o aumento da habilidade materna de organizar um ambiente seguro capaz de suprir física e psicologicamente o bebê. Se pensarmos na evolução da espécie humana, percebemos que certas doses de comportamentos obsessivos e compulsivos de caráter materno-paternal são muito importantes para a segurança, a saúde e a formação ética dos filhos em seus primeiros anos de vida. Tudo com grandes doses de amor, é claro!

Você que é mãe, está esperando um bebê ou mesmo adotou ou quer adotar uma criança, responda:

_ Quantas horas por dia você fica pensando em sua “cria”?

_ Quantas vezes você vai ao quarto do bebê, mesmo quando está tudo bem, só para assegurar-se de que realmente não há nada de errado?

_ Quantas vezes você fica preocupada se seu leite é bom, se o nenê está com fome, mesmo que ele não esteja chorando?

_ E, quando você ouve notícias sobre uma nova doença, pensa logo que o vírus ou bactéria vai contaminar seu bebê a qualquer instante?

É importante destacar que, entre o oitavo mês de gravidez e os três primeiros meses após o parto, tais comportamentos são considerados normais e até adaptativos, desde que não tragam aos pais, em especial à mãe, um sentimento de ansiedade ou angústia extremado, como alterar as orientações do pediatra por achá-las pouco seguras, entre outras atitudes exageradas. Por outro lado, existem casos que chamam a atenção de forma preocupante. Mães no pós-parto relatam que sua mente é ocupada de sete a doze horas por dia com pensamentos sobre o bebê. Duas semanas após o parto, não podiam ficar cinco minutos sem pensar no filho, mesmo se ele estivesse dormindo tranquilamente, sem manifestar nenhum tipo de desconforto.

De maneira similar à que encontramos no TOC, essas mães descrevem uma série de comportamentos (rituais) com a intenção clara de evitar que qualquer mal ocorra com seu bebê. Esses comportamentos podem ir de checagens diversas no bercinho à limpeza e desinfecção da casa e proibição de visitas. Hoje sabemos que existe uma sobreposição entre os sistemas neurobiológicos do TOC e os dos comportamentos maternos. Os gânglios da base, estruturas cerebrais envolvidas no TOC, também fazem parte do sistema da oxitocina. A oxitocina é um hormônio que ajuda a liberar o leite materno, contrai o útero durante o parto e auxilia a liberação da placenta. Estudos recentes dão destaque a sua influência sobre alguns aspectos do comportamento materno.

Todos os estudos que correlacionam TOC e oxitocina parecem apontar para um subgrupo de mulheres que teriam sintomas de pensamentos obsessivos ritualísticos, ambos geradores de muito desconforto e sofrimento e iniciados durante ou logo após a gravidez. Embora haja fortes suspeitas quanto à participação dos estrogênios (hormônios femininos) nesse processo, é precipitado juntarmos peças de um jogo de probabilidades complexas. No entanto são elementos que devem ser levados em conta quando falamos de fatores que predispõem ao desenvolvimento do TOC.

Fonte:

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