Leia parte do livro  – Mentes inquietas: TDAH – Desatenção, hiperatividade e impulsividade.

Autoria: Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva 
Editora: Globo/Principium 
Lançamento: 4ª edição – revisto e ampliado.

INTRODUÇÃO

* Dra Ana Beatriz Barbosa Silva (Médica Psiquiatra, CRM/RJ 5253226/7)

Todos já ouvimos falar de crianças hiperativas, que não conseguem ficar paradas, correm de um lado para outro, escalam móveis e vivem “a mil”, como se estivessem plugadas na tomada; ou daquelas desastradas, desajeitadas, que não conseguem prestar atenção em nada, que sonham acordadas e se distraem ao menor dos estímulos. Não raro apresentam dificuldades de aprendizagem e de relacionamento, transformam a sala de aula em campo de batalha, gerando incompreensão de pais, amigos e professores. Frequentemente recebem rótulos de rebeldes, mal-educadas, indisciplinadas, burras, preguiçosas, “cabeças de vento”, birutas, pestinhas…

Da mesma forma, é muito comum ouvirmos histórias de adultos (homens e mulheres) desorganizados, enrolados, impacientes, cheios de energia, que estão sempre em busca de algo novo e estimulante, que iniciam vários projetos simultaneamente e os abandonam no meio do caminho. Apresentam altos e baixos repentinos, são impulsivos, esquecem compromissos importantes, perdem objetos constantemente, falam o que lhes da “na telha”, não param em empregos e trocam de relacionamentos amorosos como se estivessem mudando de roupa.

Comportamentos como esses, dependendo da intensidade e da frequência, são característicos do transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), popularmente conhecido como hiperatividade, classificado pela Associação de Psiquiatria Americana (APA) 1.O TDAH se caracteriza por três sintomas básicos: desatenção, impulsividade e hiperatividade física e mental. Costuma se manifestar ainda na infância, e, em cerca de 70% dos casos, o transtorno continua na vida adulta. Ele acomete ambos os sexos, independentemente de grau de escolaridade, situação socioeconômica ou nível cultural, o que pode resultar em sérios prejuízos na qualidade de vida das pessoas que o tem, caso não sejam diagnosticadas e orientadas precocemente.

Ao longo do livro, você poderá observar que o transtorno se revela de várias formas: em alguns casos, predomina a desatenção 2; em outros, a hiperatividade e a impulsividade 3; em outros, ainda, todos os sintomas se manifestam simultaneamente 4. Assim, com o único propósito de facilitar a leitura, resolvi utilizar a sigla TDA para designar o déficit de atenção em toda a sua gama de manifestações — com ou sem hiperatividade física — e também para adjetivar as pessoas que apresentam esse modo diferente de ser. Tal denominação (TDA) aparecerá com estes dois sentidos: adjetivo e substantivo. No primeiro caso, quando me refiro ao transtorno em si; no segundo, quando me dirijo ao indivíduo com esse funcionamento mental. A pessoa nasce assim, e, portanto, podemos dizer que ela e TDA.

Escrever sobre o assunto foi, de certa forma, a maneira que encontrei de homenagear o ser humano, principalmente no que concerne ao seu talento essencial e potencial criativo, algo que os TDAs têm de sobra. Não importa a proporção ou o alcance de seus feitos — mudar o rumo da humanidade ou de apenas uma vida: o que vale é a vontade de realizar algo novo, de abrir novos caminhos.

Longe do conceito de doença, a meu ver o TDA é um funcionamento mental acelerado, inquieto, capaz de produzir, incessantemente, ideias que por vezes se apresentam de modo brilhante ou se amontoam de maneira atrapalhada, quando não encontram um direcionamento correto. Posso imaginar a grande multidão de anônimos deslocados em sua vida neste momento, mergulhados em rotinas desgastantes, considerados inadequados ou incompetentes e que, na verdade, carregam na mente tesouros para a humanidade. Também não são poucos os pais — aflitos e exaustos com o caos ocasionado por seus travessos e avoados rebentos — que acreditam ter “falhado” na educação dos filhos.

Até hoje, a desinformação acerca do assunto é um dos maiores entraves na vida de um TDA. Por isso, este livro me parece ser um jeito de contribuir para que pessoas com esse comportamento mental (ou as de seu convívio) possam encontrar respostas a tantas indagações, angústias e sofrimentos ao longo da vida. Quem sabe, a partir daí, seja possível dar início ou continuidade ao processo vital e inerente a cada ser humano: a busca da sua felicidade. Não restam dúvidas de que esse processo só pode ser concluído quando talentos e potencialidades forem despertados e direcionados não somente à realização individual, como também em prol de uma sociedade. Afinal, só o saber constitui o verdadeiro poder, tão necessário às mudanças reais.

É interessante que, quando penso em TDA, logo me vem à mente a história do Patinho Feio, que acompanhou minha infância e a muitas crianças ainda emociona. Criado como se fosse um pato e considerado diferente dos demais, ele foi rejeitado pela própria mãe. Seu andar desengonçado e sua aparência estranha provocavam risos e desprezo em todos os outros animais. Triste e sozinho no mundo, um dia viu sua imagem refletida num pequeno lago. Percebeu que não era um pato e tampouco feio. Descobriu-se um belo cisne e juntou-se aos seus pares para uma nova vida.

No dia a dia, encontramos pessoas que transformam suas histórias comuns em verdadeiros exemplos de criatividade, ousadia e coragem. São muitos TDAs que, de alguma forma e intuitivamente, conseguiram encontrar sozinhos um caminho que lhes possibilitou o aproveitamento de suas habilidades naturais.

No entanto, muitos outros permanecem perdidos, tolhidos e inconscientes dos seus próprios talentos, achando-se inferiores e incapazes de colocar em prática os seus projetos mentais. Travam lutas diárias consigo mesmos, percorrem trilhas tortuosas e malsucedidas em busca de ajuda profissional e passam a crer que não servem para nada. São “patinhos feios” tentando, desesperadamente, entender seus desacertos, sonhando com o dia em que se transformarão em belas aves autoconfiantes, cumprindo seus propósitos.

Desde a primeira publicação de Mentes inquietas, em 2003, pude perceber que inúmeros leitores se identificavam com a narrativa e os relatos ali descritos e, sem querer, viam-se diante de um espelho em que suas histórias pessoais se refletiam com riqueza de detalhes. Felizmente, muitos procuraram por ajuda especializada, e hoje grande parte deles aceitou e entendeu seu modo de ser, mudou sua maneira de agir e pensar e conseguiu canalizar seus impulsos e ideias para algo realmente produtivo. Transformaram-se em cisnes reais.

Nesta nova publicação, foram feitas várias alterações, que os leitores das edições anteriores perceberão; a começar pelo ajuste no subtítulo e pela nova sigla que passei a adotar – antes DDA, agora TDA. As medicações utilizadas para minimizar os desconfortos causados pelo transtorno foram atualizadas e, por fim, acrescentei um tópico com dicas para o gerenciamento do TDA na escola. Acredito que o esforço de pais, educadores e terapeutas faz a grande diferença para que os TDAs possam reconstruir sua autoestima e despertar o que têm de melhor: o seu potencial criativo.

Nunca me propus a desenvolver uma obra com abuso de termos técnicos ou de profundidade tamanha a dificultar a leitura do leigo. Deixo isso para os livros acadêmicos, as pesquisas e os artigos científicos. Uma abordagem técnica, aqui, só aumentaria a lacuna que existe entre aquele que sofre e a informação de que necessita para dar o primeiro passo rumo ao seu conforto vital. Procurei uma linguagem clara, fluida, de fácil entendimento e com ilustrações de casos obtidos por meio da minha prática clínica diária. Busquei dar destaque à essência TDA e, como uma “escafandrista”, tentei apresentar facetas íntimas desse universo que, embora já amplamente divulgado, ainda é pouco conhecido pelos profissionais de saúde, de educação e do grande público em geral. Acredito que o esforço de pais, educadores, terapeutas e da sociedade como um todo faz a grande diferença para que os TDAs possam reconstruir sua autoestima e despertar o que tem de melhor: o seu potencial criativo.

Espero iniciar aqui a abertura, mesmo que de modo parcial, do grande leque que o termo TDA representa.

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1 Descrito em DSM‑IV‑TR: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, 4ª edição, texto revisado.
2 Tipo predominantemente desatento.
3 Tipo predominantemente hiperativo-impulsivo.
4 Tipo combinado.

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