Leia parte do livro – Mentes depressivas: As três dimensões da doença do século.

Autoria: Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva 
Editora: Globo/Principium 

CAPÍTULO 2

* Dra Ana Beatriz Barbosa Silva (Médica Psiquiatra, CRM/RJ 5253226/7)

Depressão: uma epidemia moderna

A afirmação de existe uma epidemia de depressão pode parecer, à primeira vista, um exagero ou uma artimanha da indústria farmacêutica, que deseja ardorosamente comercializar suas pílulas mágicas de felicidade, como se vende pão quentinho recém-saído da fornada matinal. Infelizmente, os índices de pessoas acometidas por quadros de depressão clínica demonstram uma triste e sombria realidade: eles estão aumentando. Pior: permanecem por um período de tempo maior, com sintomas bem mais graves, e se iniciam em idades mais jovens. Ignorar esses fatos não fará com que a depressão desapareça de nossa vida; pelo contrário, sabemos que o desconhecimento e o preconceito contra a doença foram fatores preponderantes para chegarmos à realidade atual.

O ser humano tende a varrer para debaixo do tapete as coisas que teme, como se não pensar em algo tivesse o poder milagroso de produzir imunidade contra suas apreensões. É a velha história de que tudo de ruim está na casa dos vizinhos e, por isso mesmo, só acontece com os outros. Reprimir nossos medos e colocá-los na área mais inacessível da memória, além de não resolver o problema, tende a agravá-lo. Além disso, a falta de informação sobre o assunto impede o diagnóstico mais precoce e, em geral, impossibilita o tratamento adequado e eficaz que livraria o deprimido de um sofrimento crônico e, na maioria das vezes, incapacitante.

A depressão deve ser vista como um problema de saúde pública. Segundo a Associação de Psiquiatria Norte-americana (APA), cerca de 7% dos norte-americanos sofrem de depressão. É importante frisar que essa prevalência se restringe aos quadros clínicos compatíveis com depressão clássica. Se levássemos em conta as formas de depressão mais brandas, esses índices poderiam alcançar algo em torno de 25%,1 ou seja, um quarto dos norte-americanos teria enormes chances de sofrer de algum tipo de depressão em determinado momento da vida.

Quando falamos em depressão não nos referimos às pessoas que estão passando por momentos de tristeza e que, em poucas semanas, melhorarão espontaneamente, mas sim àquelas cujos sintomas passam a interferir de forma significativa em sua vida, causando sérios prejuízos. A depressão é uma doença clínica que, muitas vezes, pode ser fatal. Mas apesar de ser tão comum, ainda encontramos grandes dificuldades em diagnosticá-la e, dessa forma, reconhecê-la. Sem esse reconhecimento, os tratamentos adequados não podem ser efetuados e, quando o são, costumam começar quando a doença já apresenta certo grau de cronicidade.

O que mais salta aos olhos da comunidade ligada à área de saúde mental é a constatação de que essas elevadas estatísticas não se referem somente ao aumento da depressão, mas ao crescimento significativo do número de pessoas que serão acometidas por ela.2 Outro dado importante nesse quadro epidêmico é que a doença não é um fenômeno restrito à cultura norte-americana ou típico das sociedades ocidentais. O psicólogo norte-americano Daniel Goleman descreve, em um artigo denominado “A rising cost of modernity: depression” [Um custo crescente da modernidade: depressão],3 que estudos comparativos sobre a incidência da depressão clínica em países como Taiwan, Porto Rico e Líbano, entre outros, concluíram que, a cada geração, a depressão tende a se apresentar em idades mais precoces e, ao longo da vida, o risco de ela se manifestar será cada vez mais frequente, e os níveis, gradativamente mais elevados. De acordo com psiquiatra norte-americano Michael E. Thase, se a tendência atual se mantiver, as crianças hoje desenvolverão depressão com idade média de 20 anos, em vez de 30 ou mais, como era observado nas décadas de 1980 e 1990.4

Segundo estudos realizados pela Escola de Saúde Pública de Harvard e pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a depressão ocupa o primeiro lugar em termos de impacto econômico em países de renda alta e média, perdendo apenas para as doenças cardíacas e a AIDS.5 Além dos gastos pessoais e familiares com o tratamento propriamente dito, temos que ter em mente que um contingente expressivo de pessoas economicamente ativas se afasta do emprego, ou até mesmo é demitido, por não ter mais a produtividade de antes ou condições de exercer seu potencial a pleno vapor. O fato de a depressão estar acometendo indivíduos bem mais jovens também retarda o momento em que eles poderiam ingressar no mercado de trabalho, o que causa um buraco na economia de diversos países ao redor do mundo.

Diante de desses dados provenientes de estudos da área médica e econômica, fica claro que a depressão é uma doença séria, por vezes grave e bem mais comum do que gostaríamos de admitir. E, apesar de estatísticas tão alarmantes, deparo com algumas indagações: onde estão as grandes campanhas nacionais alertando para esse mal? E as corridas e maratonas contra a depressão, como ocorre com o câncer de mama, por exemplo? Onde estão as fitinhas pretas em apoio aos deprimidos, como observamos em doenças como a AIDS, o autismo, o câncer de próstata etc.? As respostas para tais perguntas podem ser sintetizadas em uma única palavra: estigma. Sim, até hoje existe um enorme estigma associado à depressão por grande parte do público leigo e até mesmo por uma pequena parcela dos profissionais da área de saúde, que ainda veem a depressão como fraqueza ou falha de caráter. Ouso afirmar que esse aspecto constitui a parte mais cruel dessa doença. As pessoas com depressão, em sua maioria, sentem-se envergonhadas e constrangidas por sua condição, o que faz com que a doença adquira um caráter silencioso. Existe uma frase emblemática que os desinformados costumam dizer para os deprimidos: “Isso é coisa da sua cabeça”. Convenhamos que essa afirmação para alguém em franco sofrimento soa como se a depressão fosse uma frescura imaginada e que ele não passa de um preguiçoso que fica perdendo tempo com “mimimis” existenciais.

1 P. Waraich et al. “Prevalence and incidence studies of mood disorders: a systematic review of the literature”.

2 Gerald M. Klerman e Myrna Weissman. “Increasing rates of depression”.

3 Daniel Goleman. “A rising cost of modernity: depression”; Myrna Weissman et al. “The changing rate of major depression”.

4 Michael E. Thase. “Long-term nature of depression”.

5 Harvard School of Public Health and Word Economic Forum: “The global economic burden of non-communicable diaseases”, 2011; OMS. “Global burden of disease: 2004: apdate”.

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