Leia parte do livro – Bullying: Mentes perigosas nas escolas.

Autoria: Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva 
Editora: Globo/Principium 
Lançamento: 2ª edição

INTRODUÇÃO

* Dra Ana Beatriz Barbosa Silva (Médica Psiquiatra, CRM/RJ 5253226/7)

Aurora da minha vida

Reflexões sobre a vida escolar

Não me lembro exatamente quando fui ao teatro pela primeira vez. No entanto, uma das peças a que assisti ainda na minha adolescência me preencheu de tamanha emoção que jamais vou esquecer: Aurora da minha vida, de Naum Alves de Souza, no antigo Teatro de Arena, em Copacabana. Não preciso fechar os olhos para lembrar o exato instante em que as luzes se acenderam e uma aluna caxias, interpretada por Marieta Severo, recitou Casimiro de Abreu:

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infancia querida
Que os anos nao trazem mais!
(…)
Meus oito anos – Casimiro de Abreu, 1857

Ao término da declamação, a menina tão exemplar era elogiadíssima pela professora, que exaltava sua extraordinária memória e habilidade para entoar os versos com o sentimento e a intensidade exata de cada estrofe. Naquele momento, outro aluno, vivido por Pedro Paulo Rangel, iniciava uma chuva de implicâncias dirigida à prodigiosa aluna. Implicava com sua maneira impecável de se vestir, com seu jeito puxa-saco de ser, com sua emoção arcaica e com sua insuportável tendência a tirar dez em todas as matérias.

O cenário era simples. Restringia-se a poucas carteiras escolares, à mesa da professora e a um quadro-negro disposto em frente às carteiras. Entre uma aula e outra, a vida daqueles estudantes era esmiuçada. Aos poucos, percebíamos a personalidade de cada um e a maneira como viam sua vida, o mundo, seus valores, seus afetos, seus sonhos, suas frustrações, seus sentimentos e sua essência.

A peça transcorria entre provocações, brincadeiras, dramas e muito humor, inebriando a todos. Cada espectador, atento e imerso em sua embriaguez, fazia uma viagem interior rumo ao pequeno estudante que fora um dia. Era visível o estado de transe em que a plateia mergulhava, inclusive eu, minha mãe e minha madrinha Lalá. Foram duas horas de pura arte e autoconhecimento, em forma de catarse imaginativa.

Ao final da peça, os alunos já estavam bem crescidos e todos de alguma forma se entenderam. As velhas brincadeiras e desentendimentos deram origem a algumas amizades cúmplices e a muitas lembranças, que jamais seriam apagadas de sua mente. Todos eles, agora, sabiam o valor incalculável da aurora da sua vida que os anos não traziam mais!

Naquela tarde fui muito feliz e com sobras de motivos: havia descoberto o valor do teatro como uma forma de autorreflexão, tomara conhecimento das diversas experiências de minha mãe e de minha madrinha em sua vida acadêmica de infância e pude perceber que a história de todos nós sempre tem um pouco da história de todo mundo. Independentemente dos tempos, todos temos boas e más passagens para contar.

Imersa em lembranças escolares, cenas vívidas afloravam em minha tela mental. Pude distinguir com clareza as brincadeiras saudáveis, das quais fiz parte, daquelas “falsas brincadeiras” que camuflavam sentimentos pouco nobres, de intolerância, preconceito, ignorância e maldade consciente. Naquela época, mal poderia imaginar que, anos à frente, eu estaria às voltas com o comportamento humano e dos alunos em seu âmbito escolar.

Na década de 1980, os pesquisadores europeus da mente humana iniciaram a nobre tarefa de nomear determinadas condutas comuns na convivência entre jovens dentro de seu universo acadêmico. Esses estudos fizeram a distinção entre as brincadeiras naturais e saudáveis, típicas da vida estudantil, daquelas que ganham requintes de crueldade e extrapolam todos os limites de respeito pelo outro. As brincadeiras acontecem de forma natural e espontânea entre os alunos. Eles brincam, zoam, colocam apelidos uns nos outros, tiram sarro dos demais e de si mesmos, dão muitas risadas e se divertem. No entanto, quando as brincadeiras são realizadas repletas de segundas intenções e de perversidade, elas se tornam verdadeiros atos de violência que ultrapassam os limites suportáveis de qualquer um.

Além disso, é necessário entender que brincadeiras normais e sadias são aquelas nas quais todos os participantes se divertem. Quando apenas alguns se divertem à custa de outros que sofrem, isso ganha outra conotação, bem diversa de um simples divertimento.

Nessa situação específica, utiliza-se o termo bullying escolar, que abrange todos os atos de violência (física ou não) que ocorrem de forma intencional e repetitiva contra um ou mais alunos, impossibilitados de fazer frente às agressões sofridas.

Hoje, ao relembrar aquela tarde no Teatro de Arena, eu seria capaz de distinguir em cada cena as verdadeiras brincadeiras entre os alunos. Elas fizeram a plateia sorrir e gargalhar, e em muitos momentos o próprio elenco se uniu à nossa diversão. Outras, porém, despertaram em nós sentimentos de apreensão, rejeição, piedade e injustiça. Tais cenas nos calaram e estamparam em nossa face expressões de perplexidade e sentimentos de omissão por situações vividas por nós. Eram cenas de bullying escolar, ali, bem debaixo do nosso nariz, fazendo-nos recordar as nossas próprias violências sofridas e engolidas.

Atualmente, tudo pode ser diferente. Temos o conhecimento ou podemos adquiri-lo a qualquer momento; só depende da nossa vontade. O que antes era algo sem definição específica, hoje tem nome, sobrenome, descrição e reconhecimento psicossocial.

Diante dessa nova e comprovada realidade, omitir-se é ser cúmplice da violência entre crianças e adolescentes no seu despertar, justamente no berço da educação e da socialização de cada ser humano. É na escola que iniciamos nossa longa jornada rumo à vida adulta, que nos transforma em cidadãos produtivos e solidários.

Não tenho dúvidas de que o bullying não pode mais ser tratado como um fenômeno exclusivo da área educacional. Atualmente ele já é definido como um problema de saúde pública e, por isso mesmo, deve entrar na pauta de todos os profissionais que atuam na área médica, psicológica e assistencial de forma mais abrangente. A falta de conhecimento sobre a existência, o funcionamento e as consequências do bullying propicia o aumento desordenado no número e na gravidade de novos casos e nos expõe a situações trágicas isoladas ou coletivas que poderiam ser evitadas.

Este livro tem como principal objetivo disponibilizar informações acessíveis sobre o tema a todos os cidadãos conscientes, ressaltando a importância da identificação precoce do bullying. Visa, também, apresentar posturas e ações que podem minimizar a incidência do problema e suas consequências desastrosas em curto e longo prazos.

Precisamos ter em mente que é na aurora de nossa vida que devemos aprender a não tolerar nenhum tipo de violência, preconceito e desrespeito ao próximo.

CONSULTÓRIO

Avenida das Américas, 3500, bloco 6
Condomínio Le Monde, sala 401,
Barra da Tijuca, Rio de Janeiro – RJ
CEP: 22640-102
(21) 3435-8592 / 3435-8597
Cel.: (21) 99566-5547

CONSULTÓRIO

Avenida das Américas, 3500, bloco 4
Condomínio Le Monde, sala 107,
Barra da Tijuca, Rio de Janeiro – RJ
CEP: 22640-102
(21) 3042-9525 / 3042-9526
Cel.: (21) 99566-5558

EVENTOS E ENTREVISTAS

Assessoria literária:
Mirian Pirolo
mirianfpirolo@gmail.com

Assessoria de Eventos:
Maria Célia Arruda
mceliaarruda@yahoo.com.br

REDES SOCIAIS