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LEIA PARTE DO LIVRO
SINOPSE

MENTES e MANIAS: TOC - Transtorno Obsessivo-compulsivo.

Autoria: Dra Ana Beatriz Barbosa Silva
Editora: Globo/Principium
2ª edição



INTRODUÇÃO
* Dra Ana Beatriz Barbosa Silva (Médica Psiquiatra, CRM/RJ 5253226/7)

Todo mundo conhece ou já ouviu falar de alguém que tem uma mania. Bate três vezes na madeira, só levanta com o pé direito, sempre coloca o mesmo sapato em dias de prova… Quase todo mundo tem atitudes como essas, em maior ou menor grau. No entanto, existem pessoas que levam suas manias às últimas consequências e, por conta disso, acabam tendo uma vida limitada, impeditiva e com prejuízos ao trabalho, à vida acadêmica e afetiva e aos relacionamentos sociais. Elas acreditam que tais atitudes são indispensáveis para que nada de errado ou catastrófico aconteça em sua vida ou com seus familiares.

Quem observa de fora provavelmente pensa: “Essa pessoa é cheia de manias”, “esquisita”, “excêntrica”… Mas, infelizmente, a realidade é bem mais complexa. Por trás dessa aparente esquisitice existe alguém que está em intenso sofrimento, naufragando em um mar revolto à espera de resgate.

Neste livro serão abordadas essas manias tão prejudiciais que passam longe de ser simples excentricidades. Trata-se de uma disfunção mental: o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). É esse o termo que define as manias quando chegam a um nível grave e incontrolável.

A primeira edição de Mentes e manias, de 2004, aconteceu alguns meses depois do lançamento do meu primeiro livro, Mentes inquietas, em que descrevo o transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH). Por causa do primeiro livro, recebi (e recebo até hoje) uma quantidade imensa de e-mails com depoimentos, agradecimentos e solicitações de ajuda. Esse foi o estímulo necessário para mais uma vez me aventurar a escrever com o objetivo de informar de maneira relativamente acessível a respeito de comportamentos causados por um funcionamento mental específico.

Embora os seres humanos busquem ser felizes, na maioria das vezes faltam-lhes a bússola, o mapa e o navio que os levem até essa ilha chamada Felicidade. Tomada por essas ideias, comecei a refletir sobre o sofrimento daqueles que apresentam o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), vivenciado por muitos de forma solitária e oculta das pessoas de sua convivência. Ao contrário de quem sofre de outros transtornos de comportamento, quem vive com TOC costuma achar as próprias ideias e ações idiotas, bobas, ridículas, absurdas, mas mesmo assim não consegue controlá-las.

Por apresentar uma visão bastante crítica sobre seu comportamento, a maioria desses indivíduos sente muita vergonha e por isso esconde seu problema das demais pessoas — inclusive dos familiares próximos. Isso impossibilita que parentes e amigos possam participar da busca por ajuda adequada.

A pessoa com TOC em geral tem a falsa e desesperadora impressão de que ela é “a única criatura na face da Terra com esse problema”. Tolo e doloroso engano: nos dias atuais estima-se que 2,5% da população mundial sofra de TOC. Infelizmente, muito poucos sabem que esse transtorno tem tratamento com resultados bastante satisfatórios.

Ao começar a escrever este livro, impus-me como objetivo principal tirar o TOC das sombras e colocá-lo como assunto de conversa. E, dessa forma, possibilitar aos indivíduos com TOC um melhor entendimento de seu problema e a busca pelo tratamento correto, o que pode abreviar e reduzir seu sofrimento e suas limitações. Além disso, é preciso fornecer subsídios aos familiares, para que possam entender a real condição dos parentes que sofrem de TOC, a fim de ajudá-los.

Este livro é baseado em minhas convicções teóricas amplamente confirmadas em minha prática clínica. No que tange aos critérios diagnósticos, confesso que me mantenho alinhada aos descritos no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, pois considero o TOC um transtorno de ansiedade grave que requer diagnóstico precoce e tratamento assertivo para minimizar os estragos que tal disfuncionalidade pode trazer a seus portadores. No entanto, o livro não se baseia em nenhuma classificação específica e tem como objetivo maior orientar e auxiliar as pessoas com as mais diversas facetas e intensidades do vasto “espectro TOC”. Além de colaborar no próprio tratamento para seguir sua vida de maneira minimamente satisfatória e produtiva.

Nesta nova edição de Mentes e manias, mudanças pontuais foram feitas ao longo do livro, e as alterações mais significativas concentram-se no capítulo sobre tratamentos. Nele foram acrescidas medicações de última geração, técnicas terapêuticas que auxiliam na melhora dos sintomas do TOC para pacientes que não respondem positivamente ao uso de medicamentos — como a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT) —, bem como a possibilidade de intervenção cirúrgica em casos mais graves.

Embora ainda pouco compreendido, desde a primeira edição desta obra percebo que o tema tem sido mais discutido por meio de filmes, seriados de TV, reportagens, animações, depoimentos de pessoas famosas no circuito nacional e internacional, e até mesmo como tema de peças teatrais.

Reconheço que muitas dessas abordagens acontecem em tom de brincadeira, despertando risos na plateia. Não que o TOC seja engraçado, de maneira alguma. No entanto, é por meio dessa leveza ao retratar o sofrimento humano que muitas vezes despertamos do torpor da ignorância e somos impulsionados a ajudar efetivamente alguém que sofre.

Neste livro também serão abordados comportamentos que se assemelham ao TOC e também são motivo de intenso sofrimento para quem tem o problema. Sem esquecer, é claro, as pequenas manias nossas de cada dia, como hábitos, superstições e rituais que fazem parte de nossa cultura e não necessitam de tratamento.

A diferença entre as pessoas, pelo menos em relação ao sofrimento mental, é quantitativa, e não qualitativa. Entre mim, você e a pessoa com TOC existe apenas uma diferença: quem sofre do transtorno pensa com maior frequência em coisas desagradáveis e toma atitudes incontroláveis e repetitivas para aliviar os medos de que tais pensamentos se concretizem.

Indivíduos com TOC, na verdade, não querem ser assim. Eles gostariam de ser organizados, meticulosos e ter raciocínio analítico. Porém, o desequilíbrio no pensar e no agir é tão grande que eles acabam se tornando, muitas vezes, desorganizados, improdutivos e “descuidados”. No entanto, entre o que se é e o que se deseja ser existe um longo caminho a percorrer. Dessa forma, criei a sigla COT (Cognição, Organização, Transformação), numa clara referência ao que a pessoa com TOC gostaria de ser caso conseguisse se desvencilhar do círculo destrutivo e vicioso de pensamentos e atitudes repetitivos. A esse respeito vou discorrer detalhadamente no capítulo 10, uma vez que a mudança de TOC para COT é a meta principal para o tratamento bem‑sucedido.

Tenho percebido inclusive que um parceiro com COT é o melhor que pode desejar a pessoa com TDAH, quando se trata de trabalhos e projetos. Diferentes e, no entanto, complementares, eles precisam das características um do outro para se desenvolver plenamente. Essa talvez seja uma autêntica dupla dinâmica, ainda que entre tapas e beijos.

Antes de mergulharmos no mundo dessas pessoas, que até hoje intrigam médicos e psicólogos de todo o mundo, é importante entender que todos nós temos deficiências ou falhas mentais. É claro que uns as apresentam de maneira mais evidente, outros, menos. Entretanto, tudo indica que o barro divino de onde viemos já veio malhado antes de nascermos.

E agora? Quem terá coragem de atirar a primeira pedra? Quem for perfeito pode começar!

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1 Classificação norte-americana de transtornos mentais. Em inglês: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. Também conhecida como DSM-IV-TR.

Foto: Sandra Lopes

Dra Ana Beatriz Barbosa Silva

Médica graduada pela UERJ com pós-graduação em psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora Honoris Causa pela UniFMU (SP) e Presidente da AEDDA – Associação dos Estudos do Distúrbio do Déficit de Atenção (SP). Diretora da clínica ANA BEATRIZ BARBOSA SILVA - Comportamento Humano e Psiquiatria (RJ). Escritora, realiza palestras, conferências, consultorias e entrevistas nos diversos meios de comunicação, sobre variados temas do comportamento humano.

E-mail:
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