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SINOPSE

CORAÇÕES DESCONTROLADOS: Ciúmes, raiva, impulsividade - o jeito borderline de ser.

Autoria: Dra Ana Beatriz Barbosa Silva
Editora: Objetiva/Fontanar
2ª edição
INTRODUÇÃO
* Dra Ana Beatriz Barbosa Silva (Médica Psiquiatra, CRM/RJ 5253226/7)

Desta vez a memória não me falha: posso recordar tudo como se estivesse vendo um grande filme de ação na sala de cinema mais equipada.

Era final da tarde do dia 23 de dezembro de 2009, eu fazia uma caminhada pela praia do Leblon, aqui no Rio de Janeiro. Resolvi parar e sentar em um quiosque, pois não consegui resistir ao pôr do sol que já se iniciava e fazia do morro Dois Irmãos o ponto mais luminoso e destacado da cidade. Lá estava eu, novamente, frente à mesma cena que já havia visto milhares de vezes, desde a minha infância. Naquele dia, como em tantos outros em que parei para assistir ao astro-rei se despedir em seu apoteótico "boa noite e até amanhã", tive a impressão de sempre: aquele era o mais belo pôr do sol que já tinha visto. Acho que todo carioca passa por isso, ficamos sempre encantados com a beleza da geografia e da luminosidade da cidade maravilhosa.

Sentada ali no quiosque, sorvendo lentamente uma água de coco, fui tomada por uma sensação de pura felicidade, e um único pensamento invadiu minha mente: "Isso é uma droga do bem." Tive a certeza de que o "vício" de ser carioca jamais seria superado nessa minha tênue existência. Naquele exato momento tudo era mágico: as pessoas na areia, o mar calmo em tons dourados, bicicletas coloridas, bolas de vôlei ritmadas, atletas disciplinados e muitos turistas e jovens em férias escolares faziam a figuração para que o astro da cena finalizasse a sua atuação do dia em grande estilo. Nada no mundo poderia me ser mais prazeroso que aquilo.

O sol se foi tão rápido, mas o "negativo" de sua luz ainda permanecia em minhas retinas. Fiquei ainda ali por alguns minutos, como se quisesse parar o tempo e enlatar aquela sensação maravilhosa, para poder resgatá-la em momentos futuros, quando a vida carece de luminosas certezas. São os dias sim que nos fazem superar os dias não e, naquela tarde, o dia era todo sim.

Logo que me levantei para retomar minha caminhada, meu celular começou a tocar, de forma insistente. Era Vitória, uma velha amiga que desde a adolescência sempre esteve presente em minha vida, de forma bastante peculiar. Ela era meiga, carinhosa e muito intensa, capaz de fazer qualquer coisa por seus amigos "da hora" e "amores" do momento. Vitória tinha o dom de arranjar amores à primeira vista e amigos novos que, em apenas dois ou três dias, se tornavam seus melhores "amigos de infância". Quando estava apaixonada, sumia e vivia de amor sem deixar rastros ou sinais de vida. Por outro lado, quando suas relações acabavam, ela surgia com a força de uma tempestade trazendo ventos e caudalosas enxurradas de lágrimas. Sempre que isso acontecia, Vitória jurava que a vida tinha acabado e que nada mais fazia sentido, mas antes de "partir dessa para uma melhor" precisava rever os amigos fiéis para agradecer por tudo e receber os últimos abraços e o aconchego verdadeiro de sua vida.

O telefone tocando insistentemente piscava: Vitória, Vitória, Vitória. Rapidamente percebi que a vibe de paz e êxtase tinha chegado ao fim, e algo bem diferente se anunciava naquele final de tarde.

Decidida e de volta à realidade atendi o telefone com voz firme: "Oi, Vic, que surpresa! Como você está, querida?" Silêncio absoluto. Insisti: "Alô, Vic, alô..." De repente, gritos, choros e palavras soltas e picotadas: "Derrubei... portão... ele... Natal... prédio... polícia..." Fiquei apreensiva, não conseguia entender nada, mas tive certeza de que, dessa vez, a Vic estava metida em alguma encrenca, e das grandes!

A ligação caiu, não hesitei, liguei novamente e, do outro lado, um homem atendeu; me antecipei: "Alô, eu sou a Dra Ana Beatriz e preciso falar com a sra. Vitória, por favor." Ele foi bem objetivo: "A sra. é a médica ou a advogada da dona Vitória?" Resolvi ser mais clara: "Sou amiga e preciso saber o que houve." Do outro lado: "Sou policial, estou levando a dona Vitória presa por invasão de domicílio e destruição de patrimônio."

Sem saber muito bem do que se tratava, pedi o endereço da cena dos "crimes", peguei o primeiro táxi e fui ao encontro de Vic. No caminho, telefonei para Roberto, um amigo advogado, e pedi que ele fosse até lá nos ajudar. Quando cheguei, Roberto já estava em clima amistoso com os policiais do lado de fora da portaria de um prédio residencial e, do lado de dentro, avistei Vitória algemada, deitada num sofá. Aos berros, dizia que aquilo tudo era um absurdo, pois ela só queria desejar Feliz Natal ao seu ex-namorado. Na calçada havia um portão estendido no chão e o carro de Vitória amassado.

Em poucos segundos pude entender toda a confusão. Felipe, ex-namorado de Vitória, havia proibido a entrada dela no prédio após o término da relação, e Vic, inconformada, resolveu entrar à força para tentar convencê-lo de que ele era o homem de sua vida! Era sempre assim quando Vic tinha um relacionamento acabado: muita choradeira, bebedeira, telefonemas e visitas à casa do ex, em tentativas desesperadas de ter o seu amor de volta. Só que dessa vez a situação tinha ido longe demais: às vésperas do Natal estávamos ali, eu, Roberto, Vic, Felipe, a atual namorada dele, três policiais e um portão eletrônico destruído.

Passamos a noite na delegacia e Roberto conseguiu que ela fosse liberada e respondesse ao processo em liberdade. Levamos Vic para a casa de seus pais, onde dormiu após tomar a medicação que seu médico, com quem falei ao telefone, havia lhe prescrito há mais de 15 dias.

Quando cheguei em casa, já era manhã do dia 24 de dezembro, quase Natal, época de nascimento ou, quem sabe, renascimento! Lembrei-me de minha amiga, seu trágico estado e dos tempos de outrora. Vitória sempre fora a menina mais bonita e exuberante de nosso grupinho de amigas. Os meninos eram loucos por ela, que sabia muito bem a arte de seduzi-los. Tinha um jeito de menina sapeca, sempre com sorrisos e gestos empáticos, que a faziam a mais popular da escola. Além disso, era divertida e sabia, como ninguém, imitar as mocinhas dos filmes e novelas; tinha o dom de nos fazer rir e chorar a cada interpretação espontânea, ora imitando uma professora, sua mãe, a diretora, ora a Simone de Selva de Pedra ou a Gabriela do seu Nacib. Ela era especial, podia ser qualquer pessoa e sempre de forma intensa e natural. Tínhamos uma certeza: Vitória iria brilhar muito na vida, de todas nós ela teria o melhor futuro, o melhor marido, o melhor emprego, a melhor vida, enfim. E nós estaríamos sempre por perto para curtir com ela toda a felicidade que a vida lhe traria.

O tempo passou e alguma coisa saiu errado, a Vic menina e adolescente havia se desmanchado. Vitória havia se perdido, naquele momento era apenas uma bela mulher diluída em álcool, calmantes e outras drogas. Onde estava a Vic que abalava e animava todas as festas com seu visual exótico, suas histórias incomuns e sua animação sem fim? Na véspera de Natal de 2009, Vic estava ali, dormindo à base de remédios para não se agredir e não machucar ninguém.

Lembrei que Vic começou a mudar radicalmente quando aos 16 anos se apaixonou pela primeira vez. Sua beleza, vivacidade e inteligência rolaram ladeira abaixo, quando Antônio a trocou por outra menina da escola. Ali, vimos pela primeira vez uma pessoa raivosa, instável, agressiva, obsessiva em reatar o namoro, autodestrutiva e, por vezes, furiosa. Não com as amigas, mas com Antônio, principalmente, e com seus familiares que tentavam impedi-la de se rastejar atrás do ex-namorado. Na época, entendemos apenas como uma reação exagerada a uma paixão desfeita. Poucos tempo depois, ela encontrou Marcelo e o "mal de amor" por Antônio curou-se como milagre.

Em mais de vinte anos de amizade, diversas vezes Vic encontrou o amor de sua vida e o perdeu para outra mulher, e toda vez que isso acontecia ela "aprontava alguma". Mas tudo passava e de tempos em tempos as superpoderosas se encontravam, e a nossa amiga mais divertida contava e representava seus dramas afetivos.

Profissionalmente, Vic se tornou uma executiva conhecida no ramo da moda e sua carreira acompanhava os altos e baixos da sua vida afetiva. Mas, mesmo entre grandes variações, seu talento para o mundo fashion era indiscutível. Já havia ganhado diversos prêmios e, por muitas vezes, foi figurinha estampada nas publicações mais conhecidas do seu ramo, no Brasil e no exterior.

Parecia inevitável relembrar tantos anos de amizade. De lembrança em lembrança algumas fichas foram caindo: Vitória sempre fora uma pessoa com um toque superlativo; sua exuberância, sua capacidade de sedução, sua inteligência social, seu talento artístico, suas histórias de amor, seus dramas, seus choros, suas raivas, suas fúrias...

A vida foi nos afastando, os contatos se tornaram eventuais, mas ainda muito agradáveis. No entanto, as pessoas mais íntimas de seu convívio a descreviam como alguém muito instável, de difícil convivência e com uma vida afetiva bastante conturbada. Na realidade, o afeto turva a nossa visão, Vitória era e sempre seria minha querida, divertida e carinhosa amiga da juventude. Porém, os acontecimentos do dia 23 me fizeram perceber que, na realidade, ela sempre tinha sido uma pessoa diferente, dessas personalidades que conseguimos amar e odiar diversas vezes. Vic nunca conseguiu ficar sozinha e feliz. Dizia ter um enorme vazio dentro de si, um vazio que nada e ninguém podiam preencher. Vic tem uma maneira de ser e existir pautada na instabilidade afetiva e de humor, nas ações autodestrutivas (uso de drogas, sexo sem proteção, atitudes lesivas) e no mais profundo medo de ser rejeitada. Isso tem nome: é o "jeito" borderline de ser. Tudo é muito, e muito ainda é pouco para quem é assim.

Estava claro para mim: Vitória precisava de ajuda, ela tinha um enorme caminho a percorrer rumo ao centro de si mesma, precisava aprender a ser ela mesma, e não mais uma projeção do seu "amor da hora". Ela estava perdida em si, sua identidade era fluida e, como tal, escorria entre seus dedos, tornando sua vida uma sucessão de personagens criados a cada "novo amor". Era hora dela perceber que sozinhos já somos um universo inteiro e que nesse universo "do eu" existem todos os ingredientes para construirmos uma personalidade que dê conta de viver e ser feliz.

Lembrei-me do pôr do sol do dia anterior e desejei, do fundo do coração, que a Vic pudesse sentir, em breve, o prazer que tantas vezes senti com aquela cena. Esse prazer é algo interno, não está no outro e sim na percepção de sermos quem somos, estejamos onde estivermos, amando tudo isso, mesmo que tudo isso seja banal e repetitivo.

O dia amanheceu meio nublado, o sol estava meio tímido entre nuvens densas, mas meu pensamento era claro como água cristalina: eu escreveria um livro sobre a personalidade borderline, essa era a minha maneira de expressar todo o afeto que sentia pela Vic e por todas as pessoas que como ela vivem por aí, perdidas dentro de si, buscando fora (especialmente nos outros) o que está no fundo de seus universos particulares.

Hoje, dois anos e meio depois daquela tarde inesquecível do dia 23 de dezembro de 2009, estou aqui para apresentar a vocês o melhor que pude escrever sobre essa personalidade tão complexa quanto intrigante. Corações descontrolados: ciúmes, raiva, impulsividade — O jeito borderline de ser está pronto e o meu maior desejo é que ele auxilie as pessoas nessa eterna caminhada rumo ao centro do ser.


P.S.: A Vic está levando a sério seu tratamento, nunca mais fez escândalos em términos de relacionamentos, está no auge de sua carreira e tem um namorado gente boa, que ela só vê nos finais de semana.

Por quê? Diz ela que assim não vicia!

Ana Beatriz Barbosa Silva
Foto: Sandra Lopes

Dra Ana Beatriz Barbosa Silva

Médica graduada pela UERJ com pós-graduação em psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora Honoris Causa pela UniFMU (SP) e Presidente da AEDDA – Associação dos Estudos do Distúrbio do Déficit de Atenção (SP). Diretora da clínica ANA BEATRIZ BARBOSA SILVA - Comportamento Humano e Psiquiatria (RJ). Escritora, realiza palestras, conferências, consultorias e entrevistas nos diversos meios de comunicação, sobre variados temas do comportamento humano.

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