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Transtornos

Autoria: Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva

* Dra Ana Beatriz Barbosa Silva (Médica Psiquiatra, CRM/RJ 5253226/7)

Vocês se lembram do Capitão Caverna, coberto por aquela infinidade de pelos desgrenhados e maltratados, com aspecto “eletrizado”? Certamente o Capitão Caverna não tinha tricotilomania, pois se tivesse enxergaríamos algumas falhas naquela “maçaroca” toda.

A característica essencial da tricotilomania (esse nome tão estranho e complicado) é o desejo ou impulso incontrolável de arrancar fios ou tufos de cabelo. Muitas vezes, esse comportamento pode se tornar tão automatizado que a pessoa age inadvertidamente, sem se dar conta do que faz. Pode se tornar tão grave a ponto de a pessoa ficar com extensas falhas no couro cabeludo, sobrancelhas ou cílios. Arrancar fios de cabelo de outros locais, como barba e pelos pubianos, são ocorrências bastante incomuns.

A atitude de arrancar fios em si já seria bastante estranha – e quem sofre de tricotilomania tem completa consciência da estranheza do próprio comportamento –, mas, após arrancar os fios, muitas pessoas com esse transtorno ainda se engajam em comportamentos como alisar os fios, enrolando-os entre os dedos, passando por entre os lábios e brincando com eles de maneira geral. Mais raramente, algumas chegam a comer as raízes dos fios ou mesmo a engoli-los, o que pode até levar à necessidade de cirurgia para a retirada dos bolos de fios que se formam.

Não se sabe ao certo o que causa a tricotilomania, mas certamente o fator biológico (genético) é predominante, em razão de sua grande ocorrência em famílias em que um dos membros já teve TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), ou algum transtorno do espectro TOC.

Cabe aqui uma pequena explicação do que vem a ser esses transtornos comportamentais: O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) é um transtorno psiquiátrico, conhecido popularmente como “manias”, que causa extremo sofrimento ao portador. Caracteriza-se por pensamentos obsessivos e intrusivos, sempre de natureza ruim, como pensar exaustivamente que irá se contaminar ou que um ente querido morrerá, por exemplo. Na tentativa de aliviá-los, o portador adota comportamentos compulsivos e incontroláveis (rituais), tais como lavar as mãos e tomar banho várias vezes ao dia; mania de limpeza, de arrumação, de deixar tudo simetricamente organizado checar; várias vezes as trancas das portas, entre muitos outros. Estas atitudes geram mais angústia e constrangimentos ao portador de TOC, pois são perceptíveis aos olhos dos outros.

Já os transtornos do espectro TOC, como a mania de arrancar o cabelo (tricotilomania), lembram muito o TOC, mas que não se confiram neste transtorno propriamente dito. Muitas características são semelhantes, como sintomas, idade de início, curso ou evolução clínica, origem, história familiar, modo de transmissão genética, semelhança e respostas positivas quanto ao tratamento, mas na verdade são alterações de comportamento que se constituem em uma entidade clínica independente por si só.

Em geral a tricotilomania começa na infância ou na adolescência. Na prática clínica, observo que muitos adolescentes começam a puxar os cabelos ao perceberem que a qualidade e a cor dos fios mudaram em razão das alterações naturais da adolescência. Isso é mais comum entre as meninas, que dizem não se conformar que o cabelo tenha ficado mais grosso, mais ondulado ou mais escuro. Assim, algumas se esmeram em catar fios destoantes dos demais. Usam o tato para sentir a textura dos fios ou ficam observando no espelho até detectar fios não assentados, crespos ou com qualquer outra característica que fuja ao padrão por elas desejado.

O ato de puxar os fios costuma ser precedido de duas situações curiosamente opostas entre si: ou uma situação de aumento de estresse, que cause ansiedade e nervosismo, ou situações tranquilas, de contemplação, em que a pessoa não tenha nada de imediato para fazer e fique pensando. Nestas últimas, com frequência, a pessoa começará puxar os fios distraidamente.

Esse problema ganha contornos dramáticos porque causa danos à autoestima das pessoas e, muitas vezes, também à sua estética. É comum que deixem de sair de casa, passem a usar bonés e evitem ir à praia, piscina ou atitudes em que as falhas do couro cabeludo possam ficar expostas.

O tratamento, prolongado e difícil, envolve a necessidade de ganhar maior controle sobre os próprios impulsos, por meio de medicamentos e psicoterapia de abordagem cognitivo-comportamental (TCC), o que sempre vem após bastante esforço e perseverança.

 



Foto: Sandra Lopes

Dra Ana Beatriz Barbosa Silva

Médica graduada pela UERJ com pós-graduação em psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora Honoris Causa pela UniFMU (SP) e Presidente da AEDDA – Associação dos Estudos do Distúrbio do Déficit de Atenção (SP). Diretora da clínica ANA BEATRIZ BARBOSA SILVA - Comportamento Humano e Psiquiatria (RJ). Escritora, realiza palestras, conferências, consultorias e entrevistas nos diversos meios de comunicação, sobre variados temas do comportamento humano.

E-mail:
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