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Artigos Livres

Autoria: Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva.

* Dra Ana Beatriz Barbosa Silva (Médica Psiquiatra, CRM/RJ 5253226/7)

Desde a década de 80, na Europa, os pesquisadores da mente humana iniciaram a nobre tarefa de nomear determinadas condutas de jovens entre si, dentro de seus universos acadêmicos. Esses estudos fizeram a distinção entre as brincadeiras naturais e saudáveis, típicas da vida estudantil, daquelas que ganham requintes de crueldade e extrapolam todos os limites de respeito pelo outro. As brincadeiras acontecem de forma natural e espontânea entre os alunos. Eles brincam, “zoam”, colocam apelidos uns nos outros, tiram “sarros” dos demais e de si mesmos, dão muitas risadas e se divertem. No entanto, quando as “brincadeiras” são realizadas repletas de “segundas intenções” e de perversidades, elas se tornam verdadeiros atos de violência que ultrapassam os limites suportáveis de qualquer um.

Além disso, é necessário entendermos que brincadeiras normais e sadias são aquelas nas quais todos os participantes se divertem. Quando apenas alguns se divertem a custa de outros que sofrem, isso ganha outra conotação bem diversa de um simples divertimento. Nessa situação específica, utiliza-se o termo bullying escolar, que abrange todos os atos de violência (físico ou não) que ocorrem de forma intencional e repetitiva contra um ou alunos, impossibilitados de fazer frente as agressões sofridas.

O bullying tornou-se um problema endêmico nas escolas de todo o mundo. Um dos casos mais emblemáticos e com fim trágico ocorreu nos Estados Unidos, em 1999, no colégio Columbine High School, em Denver, Colorado. Os estudantes Eric Harris, de 18 anos e Dylan Klebold de 17, assassinaram 12 estudantes e um professor. Deixaram mais de vinte pessoas feridas e se suicidaram em seguida. A motivação para o ataque seria vingança pela exclusão escolar que os dois teriam sofrido durante muito tempo.

A palavra bullying, de origem inglesa e ainda sem tradução no Brasil, ainda é pouco conhecida do grande público. Se recorrermos ao dicionário encontraremos as seguintes traduções para a palavra bully: indivíduo valentão, tirano, mandão, brigão. Os bullies (ou agressores) são responsáveis por atitudes de violência física ou psicológica contra uma ou mais vítimas que se encontram impossibilitadas de se defender. Seja por uma questão circunstancial ou por uma desigualdade subjetiva de poder. Em geral um bully domina a maioria dos alunos de uma turma e “proíbe” qualquer atitude solidária em relação ao agredido.

Algumas atitudes podem se configurar em formas diretas ou indiretas de praticar o bullying. Porém, dificilmente a vítima recebe apenas um tipo de maus-tratos; normalmente, os comportamentos desrespeitosos dos bullies costumam vir em “bando”. Assim, uma mesma vítima pode sofrer variadas formas de agressões tais como: verbal (insultar, xingar), física (bater, ferir), psicológica ou moral (humilhar, isolar), sexual (assediar, abusar) e virtual (ciberbullying) realizado através de celular e internet para difundir, de forma avassaladora, calúnias e maledicências.

Além de os agressores escolherem um aluno-alvo que se encontra em franca desigualdade de poder, geralmente este também já apresenta uma baixa autoestima. A prática de bullying agrava o problema preexistente, assim como pode abrir casos graves de transtornos psíquicos e/ou comportamentais que, muitas vezes, trazem prejuízos irreversíveis. No exercício diário de minha profissão, observo que não somente crianças e adolescentes sofrem com essa prática indecorosa, como muitos adultos experimentam aflições intensas advindas de uma vida estudantil traumática. Dentre esses problemas destaco: sintomas psicossomáticos (insônia, náuseas, tonturas etc.), transtorno do pânico, fobia escolar (medo intenso de frequentar a escola), fobia social (timidez patológica), ansiedade generalizada, anorexia, bulimia, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), esquizofrenia e, em casos mais dramáticos, homicídio e suicídio.

Como se não bastasse todo o sofrimento e adoecimento das vítimas, diversos estudos apontam para o fato de os agressores possuírem maior probabilidade de praticarem atos de delinquência e criminalidade. A maioria deles se comporta assim por uma nítida falta de limites em seus processos de educação. A ausência de um modelo educativo que associe autorrealização pessoal com atitudes socialmente produtivas e solidárias faz com que os agressores se sintam gratificados somente com atitudes egoístas e maldosas, que lhes conferem notoriedade e autoridade sobre os demais alunos. Outros adotam comportamentos transgressores por estarem vivenciando dificuldades circunstanciais em seus relacionamentos familiares (doenças graves, separação dos pais, morte de um parente querido etc.). Por fim, encontramos também uma minoria de jovens agressores que tenha a transgressão pessoal e social como base de sua personalidade. Suas atitudes expressam uma maneira de sentir na qual o outro tem a única função de lhe proporcionar diversão, status e poder.

Não há dúvida de que o fenômeno bullying estimula a delinquência e induz a outras formas explícitas de violência, capazes de produzir, em níveis diversos, cidadãos estressados, com baixa autoestima e reduzida capacidade de autoexpressão. Além disso, como já mencionado, as vítimas de bullying estão propensas a desenvolver doenças psicossomáticas, transtornos mentais leves e moderados e até psicopatologias graves.

É preciso ainda reiterar a interferência drástica que o bullying produz no processo de aprendizagem e de socialização de nossas crianças e jovens. Para algumas vítimas, mesmo após a interrupção do bullying, as consequências, advindas dessa violência, tendem a se propagar por toda uma existência em decorrência das experiências traumáticas difíceis de serem removidas da memória. Em caso mais graves, quando a violência é intensa e contínua, a vítima pode chegar a cometer suicídio ou atos de heteroagressão e autoagressão (homicídio seguido de suicídio).

Desta forma, os profissionais de educação, de saúde mental, de assistência social, da área do Direito (como juízes, promotores, delegados de polícia) e os agentes policiais devem adquirir o máximo de conhecimento sobre o fenômeno bullying. Somente dessa maneira, ao se depararem com o problema, poderão contribuir para a busca de soluções eficazes.

O diagnóstico do bullying deve ser feito o mais precocemente possível, em cada realidade escolar. A partir daí, é preciso se estabelecer um diálogo amplo entre todos os envolvidos em cada caso específico. Agir de forma rápida e coesa tem o objetivo nobre de evitar que os jovens envolvidos com os comportamentos bullying assimilem uma mensagem social equivocada de que os problemas podem ser resolvidos com violência ou com a anulação moral dos mais fracos.

A luta antibullying deve ser iniciada desde muito cedo, já nos primeiros anos de escolarização. A importância da precocidade das ações educacionais se deve ao incalculável poder que as crianças possuem para propagar e difundir ideias. Elas facilmente se transformam em agentes multiplicadores capazes de “educar”, por vias alternativas, seus familiares e funcionários domésticos, criando-se assim um círculo vicioso no empenho pela paz.

Nessa luta épica, cujo cenário principal é a escola e os atores principais são os profissionais de educação, estão em jogo os bens mais preciosos da humanidade: a solidariedade, a tolerância, a justiça, a dignidade, a honestidade, a amizade, o respeito às diferenças e o amor ao próximo.

Para que essa batalha tenha um final feliz, devemos fortalecer nossos guerreiros: exigir políticas públicas e privadas que disponibilize recursos significativos para a formação intelectual, técnica, psicológica e pessoal de nossos educadores. Somente dessa forma eles poderão ter o comprometimento, o engajamento e a segurança de que necessitam para abraçar de corpo e alma essa causa heróica: educar nossas crianças e adolescentes para uma vida de cidadania plena, em que direitos e deveres, que hoje só existem no papel, sejam de fato exercidos e respeitados no dia a dia.

Fonte:
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Foto: Sandra Lopes

Dra Ana Beatriz Barbosa Silva

Médica graduada pela UERJ com pós-graduação em psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora Honoris Causa pela UniFMU (SP) e Presidente da AEDDA – Associação dos Estudos do Distúrbio do Déficit de Atenção (SP). Diretora da clínica ANA BEATRIZ BARBOSA SILVA - Comportamento Humano e Psiquiatria (RJ). Escritora, realiza palestras, conferências, consultorias e entrevistas nos diversos meios de comunicação, sobre variados temas do comportamento humano.

E-mail:
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